domingo, 17 de maio de 2015

Matéria da Carta Capital: Ramadi e EI


Miliciano xiita no Iraque
No domingo 17, após meses de pressão, o autoproclamado Estado Islâmico tomou a cidade iraquiana de Ramadi. A conquista, parte de uma tentativa de dominar todo o oeste do Iraque, demonstra a força do grupo e ajuda a entender parte dos graves problemas da estratégia usada para combater os extremistas. Intrinsecamente contraditória, a luta, da qual fazem parte Iraque, Estados Unidos e Irã, tende a reforçar as raízes da existência do Estado Islâmico.
O ISIS, como também é conhecida a facção jihadista, vinha tentando conquistar Ramadi desde janeiro de 2014. No início deste ano, a cidade se tornou uma das prioridades estratégicas do grupo e, nos últimos dias, era alvo de uma intensa ofensiva. Por meio de ataques diversionários no início do mês, o ISIS buscou fixar as defesas das cidades de Haditha, Hit e Al-Baghdadi e da base aérea Al-Asad, impedindo o envio de reforços para Ramadi. Na ofensiva final, iniciada em 15 de maio, usou 28 carros-bomba dirigidos por suicidas e aproveitou uma tempestade de areia para agir sem a sombra dos bombardeiros norte-americanos que protegiam as tropas iraquianas.
Ramadi é estratégica para o ISIS por diversos motivos. Sua conquista ajuda a romper a formação de uma frente de ataque iraquiana e pode servir de base para a tomada de outros alvos importantes, como Haditha e a base Al-Asad. Além disso, Ramadi é a capital da província de Anbar, que concentra a população sunita do Iraque. Sunita como o ISIS, que usará a cidade para ampliar sua arrecadação por meio de imposto e extorsões (de cerca de 1 milhão de dólares por dia), mas também para obter novos recrutas.
Desde a tomada de Ramadi, mais de 25 mil pessoas já fugiram da cidade, temendo asexecuções sumárias e destruição que se tornaram marcas do Estado Islâmico. Por falta de alternativas, muitos outros ficam, e alguns, à força ou voluntariamente, se tornarão soldados do ISIS. Como outras cidades sunitas controladas pelo Estado Islâmico, Ramadi vive agora um drama complexo. Hostilizados e acuados desde a derrubada de Saddam Hussein, os sunitas iraquianos se encontram entre a cruz e a espada: de um lado estão os jihadistas e, de outro, o governo iraquiano, dominado por xiitas e responsável por inúmeros abusos contra a comunidade sunita ao longo dos últimos anos, como prisões em massa e acusações forjadas de terrorismo.
Para retomar Ramadi, seria necessário um rápido contra-ataque, mas não há forças sunitas capazes de fazer isso. O exército iraquiano está destroçado e as tribos da província de Anbar reclamam da falta de armamentos, que em geral não chegam a elas porque algumas se aliaram a jihadistas no passado. Hoje, a arremetida contra Ramadi só poderia ser realizada pelas milícias paramilitares xiitas. Reorganizadas após a emergência do ISIS, elas somam hoje cerca de 120 mil soldados, mais que exército iraquiano. Algumas respondem ao governo do primeiro-ministro Haider al-Abadi, xiita que promete reconciliar as duas comunidades, mas outras recebem armas, financiamento e treinamento do Irã, vizinho xiita do Iraque. Durante a recente guerra civil iraquiana (2005-2008), essas milícias foram responsáveis por sequestros, torturas e assassinatos de sunitas. Na atual campanha contra o ISIS, novos casos de atrocidades têm sido registrados.